Espiritismo e Espiritualismo: em que diferem?

Ao publicar O Livro dos Espíritos em 1857, Allan Kardec apresenta o neologismo Espiritismo. Na Introdução dessa obra, justifica ser necessário um termo novo para descrever um conjunto de ideias que não cabia num vocabulário existente até então.

Quanto ao contexto histórico: em francês, spiritualisme designava, na tradição filosófica de Victor Cousin e Maine de Biran, qualquer posição que afirmasse a existência de um princípio imaterial, em oposição ao materialismo.

Já nos países anglófonos, spiritualism designava o movimento mediúnico norte-americano, que não tinha uma doutrina sistematizada e, na maioria das correntes, não considerava possível a reencarnação.

Nenhuma destas designações servia para nomear o que Allan Kardec estava a codificar. Cria, por isso, a palavra Espiritismo, que, em traços gerais, se distingue de Espiritualismo desta forma:

É espiritualista quem aceita a existência de um princípio imaterial, qualquer que seja a sua formulação. A maioria das religiões com noção de alma, e boa parte das tradições filosóficas modernas, são espiritualistas nesse sentido lato. Ser espiritualista não implica, contudo, aceitar a comunicação entre encarnados e desencarnados, a reencarnação ou a pluralidade dos mundos habitados.

O Espiritismo, tal como apresentado por Allan Kardec, define-se como uma ciência de observação e doutrina filosófica: ciência, quanto ao estudo das relações entre o mundo corporal e o mundo espiritual; doutrina filosófica, quanto às consequências morais que essas relações implicam.

Daqui resulta que todos os que se reconhecem como espíritas são também espiritualistas em sentido lato, mas o inverso não é verdadeiro.

Fontes:
Kardec, A. (1857). Le Livre des Esprits, «Introduction», § I. Edição consultada: Le Mouvement Spirite Francophone, 2020.
Kardec, A. (1859). Qu’est-ce que le Spiritisme ?, Cap. I, «Petite Conférence Spirite», Deuxième entretien : Le Sceptique, secção «Spiritisme et Spiritualisme». Edição consultada: Encyclopédie Spirite, 2006.
Kardec, A. (1858). Instruction Pratique sur les Manifestations Spirites, «Vocabulaire Spirite», entrada Spiritualisme. Edição consultada: Union Spirite Française et Francophone, 2006.